Numa perspectiva fisiológica, o acto de escrever resulta duma coordenação de vários músculos antagónicos, e só se pode efectuar com a activação de processos neuro-fisiológicos. Em relação aos mecanismos motores, o braço e a mão são uma prolongação anatómica do cérebro, que, com a ajuda dum objecto impressor, proporciona esta actividade. Podemos avançar a ideia de que, contrariamente ao aparente, é o cérebro que escreve. A titulo de exemplo, muitos amputados desenvolveram a capacidade de desenhar e escrever com a boca ou o pé. Apesar de parecer um acto reflexo, a aquisição da habilidade necessitou de anos de aprendizagem, até cada pessoa se capacitar e possuir a sua própria escrita, a sua própria maneira de efectuar as letras, de as combinar, de se movimentar na página. Em resumo, o seu próprio gestual caligráfico.
Com os anos, a escrita torna-se progressivamente uma actividade quase automática. No entanto, o acto de escrever decorre de um conjunto de acções e reacções, envolvendo mecanismos neuro-musculares e psicomotores, tais como a postura, a coordenação dos dedos, mão, pulso, braço, ombro, que asseguram o movimento gráfico. Os gestos gráficos conciliam a formação e estruturação das letras e, simultaneamente, o movimento de translação, ou seja, a deslocação da esquerda para a direita, para o que se refere aos modelos ocidentais, e o inverso para as culturas árabes. Para simplificar, todas as regulações motrizes desses gestos são assumidas, entre outros, pelo cerebelo, que distribui a energia nervosa aos movimentos musculares. De facto, o acto de escrever obedece a duas forças antagónicas, exigindo uma coordenação do membro para fornecer força, rapidez e outras particularidades próprias à escrita.
Paralelamente, ao nível neurológico, são activados circuitos neuronais específicos, envolvendo a zona hipotálamica, que pertence ao striatum, mais conhecido por sistema límbico. Este último, o striatum, cérebro dito dos mamíferos, além de assumir as funções ligadas às percepções olfactivas, também regula os comportamentos e as emoções. Este cérebro é o centro das sensações e emoções e constitui um sistema instintivo-afectivo superior que assegura um papel de adaptação dos comportamentos. Ele polariza os eventos perante o princípio de agradável ou desagradável, atracção ou repulsa, prazer ou tristeza, desejo ou medo. É por intermédio do hipotálamo que os nossos automatismos, movimentos e reflexos, se impregnam de afectividade. De facto, o gesto gráfico reflecte os sinais subtis dos sentimentos e estados emocionais de quem escreve. Isto explica, em parte, porque gostamos ou não de uma determina escrita, ou ainda, a escolha preferencial das formas que vamos adoptar ao longo do tempo para personalizar a nossa escrita. Processos que se observam, entre outros, através da necessidade dos adolescentes de pesquisar a sua assinatura e escrita, e muitas outras atitudes psico-afectivas frente às escritas em geral. Todos esses fenómenos confirmam a interacção entre quem escreve com a sua própria escrita, e com as dos outros.
Por fim, tal como a linguagem oral e a leitura, o acto de escrever envolve um conjunto de processos mentais pertencente ao neo-córtex, que assegura as funções cognitivas, as relações de causa/efeito e todas as formas de abstracção. Este cérebro, considerado como mais evoluído, assume essencialmente as funções associativas, perceptíveis, linguísticas, intelectuais, participando, ainda, na elaboração do pensamento, do raciocino em geral e da imaginação: operações indissociáveis do acto de escrever.
Esta síntese, reúne os fundamentos fisiológicos e psicológicos da actividade manuscrita. Em resumo: a psicologia da escrita ou grafologia, constitui uma prova interessante e valiosa para se fazer uma ideia do carácter do escrevente.
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